A Eterna Criança – Auto-estima e Individuação

Fabiana Lopes Binda Graci

“Em todo adulto espreita uma criança – uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo, e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa”. (Jung, 1981, par. 286, p. 175).
             Parece difícil falar sobre auto- estima sem correr o risco de parecer superficial. Atualmente, parece que todos conhecem ou falam sobre a auto-estima. Contudo, ao refletir sobre o assunto de uma maneira mais profunda, deparei-me com o sentimento de valor ou dignidade que uma pessoa atribui a si mesmo, e o quanto esta questão é pertinente ao sofrimento que muitos pacientes trazem à clínica psicológica como tema a ser discutido.
Na prática clínica tenho acompanhado pessoas que apresentam dificuldades para confiar em si mesmas, e estabelecer relacionamentos íntimos satisfatórios. Sentem-se paralisadas pela vergonha, pela ansiedade e pela culpa.
A falta de amor vivida na primeira infância, implica em graves transtornos na vida futura. A negligência no cuidado e no amor materno faz com que a pessoa não se sinta segura para gostar de si própria, não acreditando conseqüentemente no amor do outro. Pessoas que sofreram esta falta relatam dificuldades em encontrar prazer em viver.
O sentimento de vazio que a falta de amor ocasiona, leva a uma busca compulsiva de satisfação externa. Relatos de sentimentos de inadequação, auto-depreciação, paralisia e impotência fazem parte do cenário psíquico da baixa auto-estima.
Ao refletir sobre a formação da auto-estima, é necessário percorrer o processo de desenvolvimento humano, tendo em vista como se formam a nossa identidade e nossa auto-imagem.
Jung em “O Desenvolvimento da Personalidade” (1981) aborda o desenvolvimento da consciência durante a infância. Ele nos afirma que ao nascer não há consciência, mas apenas fragmentos de consciência amalgamada com a psique materna. É somente entre os três e os cinco anos de vida que a criança evolui e toma consciência do próprio “eu” e pode-se dizer que, a partir de então, surge à psique individual.
Para Jung e outros autores, relacionamentos saudáveis com os pais e com o ambiente nestes primeiros anos, são fundamentais para a manifestação de uma personalidade com características de autoconfiança e capacidade de realização do seu potencial.
Erich Neumann em seu livro “A Criança” (1991), explora o relacionamento entre a mãe e o bebê nos primeiros anos de vida, e o quanto experiências satisfatórias nesta primeira etapa da formação da personalidade são fundamentais para o desenvolvimento saudável do ego e da relação deste com o Si-Mesmo.
A auto-estima se forma a partir destas primeiras experiências afetivas que a criança estabelece com os pais e com o ambiente em que vive. Nestes anos de vida a criança ainda não tem uma consciência de si e sua psique encontra-se amalgamada com a psique da mãe, a consciência vai emergindo aos poucos, quando a psique da criança vai se diferenciando da psique materna e o ego deste pequeno ser vai sendo estruturado.
A partir desta separação ou diferenciação, as primeiras noções da auto-imagem são construídas, os valores que pautam a convivência com o mundo se estabelecem e o indivíduo vai aos poucos traçando para si quais características de sua personalidade são aceitas, como seus pais e o ambiente esperam que ele se comporte. Desta forma para abordar a questão da auto-estima, é necessário discutir a formação do ego e também a formação da sombra e da persona.
A sombra e a persona, são estruturas complementares que existem em toda psique humana, são arquétipos. A sombra é a imagem de nós mesmos que reprimimos, mantemos afastada da consciência. Já a persona, o seu oposto, são adaptações que o ser humano utiliza para lidar com o mundo social em que vive.
O ego, lida com os conteúdos que emergem do inconsciente à consciência e com as informações que recebe do mundo externo, formula juízos de valor e toma decisões se deve ou não agir de acordo com estes conteúdos ou informações.
Outro aspecto que deve ser discutido para se pensar em auto-estima é anterior a formação do ego.  Na fase urobórica, a primeira fase de desenvolvimento (primeiro ano de vida, segundo Neumann) a psique da criança encontra-se fundida e regulada pela psique da mãe, o Si-Mesmo infantil depende de uma relação primal adequada e saudável para que possa se relacionar com o outro e posteriormente ter consciência de si mesmo. Uma relação primal adequada que protege, alimenta aquece e contém a criança é estrutural para o desenvolvimento saudável da consciência.
Neste primeiro período a criança vive uma realidade mitológica, seu universo interior é povoado de figuras anímicas e para a criança a realidade interior e exterior fazem parte de uma mesma realidade. É neste período que a psique da criança irá potencializar a experiência da grande mãe arquetípica como positiva e negativa.
Quando esta relação primal é suficiente para estruturar uma confiança no amor da mãe ela conduz a um eixo ego–Si-Mesmo saudável. E então o ego pode ir se diferenciando do Si-Mesmo e da psique materna, desenvolvendo-se como um sujeito apto para lidar com o mundo como “o outro” e como objeto. Quando esta relação não ocorre de maneira satisfatória ela pode gerar desvios na constelação arquetípica que podem chegar a lesar ou bloquear totalmente o desenvolvimento da criança.
A grande mãe arquetípica que a psique primária vivencia através da mãe pessoal deve proporcionar prazer, compensação, segurança e proteção. Através destes aspectos do arquétipo materno o ego em formação pode experimentar a proteção da continuidade da existência.
Experiências negativas nesta primeira fase comprometem a confiança da criança em si mesma e no mundo, esta relação primária negativa pode gerar problemas afetivos, insegurança, e problemas da auto-estima entre outros.
Estas experiências de abandono na primeira infância geram uma ferida no Si-Mesmo infantil que interferem nas possibilidades de desenvolvimento e até no destino daquele ser. Jung se refere a isto quando diz: “A eterna criança no homem é uma experiência indescritível, uma incongruência, um déficit, e uma prerrogativa divina; um imponderável que determina o valor essencial de uma personalidade ou sua falta de valor”. (Jung, 2000, §300, p. 179)
Este sentimento de valor ou não que o indivíduo traz de sua infância, interfere em seu destino e nas escolhas que fará. Até que mais tarde, esta pessoa possa rever as circunstâncias originais de sua vida e elaborá-las.
Felizmente, Jung ao discutir o tema do arquétipo da criança nos abre a perspectiva de transformação da personalidade. Para ele o arquétipo da criança: “representa a mais poderosa e inelutável ânsia em cada ser humano, ou seja, a ânsia de realizar a si próprio” (JUNG, 2000,§289, p.171). Através desta possibilidade que existe dentro de cada um, o ser humano encontra uma esperança, uma saída para sua história pessoal e coletiva, assim como o caminho para realização da totalidade do homem.
O arquétipo da criança nos remete a dois aspectos polares da psique: de um lado o tema nascimento miraculoso e de outro o abandono e as adversidades. O nascimento miraculoso refere-se ao aspecto da divindade da criança, que personifica o inconsciente coletivo ainda não integrado, ou seja, o Si-Mesmo. De outro lado, o abandono refere-se à natureza humana do herói. Através do abandono o herói experimenta a sua insignificância, a exposição e o perigo. Este segundo aspecto relaciona-se com a precariedade da psique para atingir esta meta suprema de auto-realização. Neste contexto, o relacionamento da psique com o ambiente, expõe à primeira, aos mais diferentes obstáculos que dificultam à individuação.
O arquétipo da criança se manifesta no processo de individuação quando a pessoa se confronta com sua infância, com suas experiências de abandono e suas fantasias arcaicas. O desafio está em ver o que cada indivíduo pode fazer com as circunstâncias originais de sua vida, com sua prima matéria.
Segundo Jung; “Psicologicamente, a “criança” simboliza a essência humana pré-consciente e pós-consciente. O seu ser pré consciente é o estado inconsciente da primeiríssima infância; o pós consciente é uma antecipação per analogiam da vida além da morte. ”(Jung, 2000, §299, p. 178).
Jung conclui que a manifestação do arquétipo da criança ocorre quando há uma identificação do paciente com seu infantilismo pessoal e com a sua criança abandonada e incompreendida. Aos poucos, através da psicoterapia, pode ocorrer uma separação ou objetivação gradual das identificações projetivas, neste momento é comum ocorrer uma intensificação das fantasias arcaicas, com traços míticos notáveis.
O arquétipo da criança permite que a consciência entre em contato com o abandono que foi experimentado na infância, se confronte com os opostos polares e então a psique pode encontrar o caminho que leva a superação das projeções, à experiência da possibilidade de integração, ou seja, à individuação. A individuação está ligada à integração da identidade peculiar do Si-Mesmo infantil.
Como já foi discutido, os sentimentos de auto-estima são oriundos do cuidado empático e afirmação que recebemos cedo na vida, de pessoas significativas. Os primeiros padrões de relacionamento representam um papel decisivo em relação ao medo de perder o valor diante dos olhos dos outros.
Durante o processo analítico, os relacionamentos primários são ativados na relação transferencial entre analista e paciente. De acordo com Stein, R., “A transferência é o fenômeno pelo qual uma pessoa (projeta) uma vivência reprimida do passado para o terapeuta, ou seja, o paciente pode vivenciar o terapeuta como uma autoridade paterna ou materna não afetuosa, crítica e condenatória. (Stein, R, apud ABRANS, 1994, p. 244)”
Jacoby (1992) aborda a análise como um campo interativo na qual, os clientes de alguma forma, esperam que o psicoterapeuta possa aliviar o seu sofrimento psíquico. Mas, ao contrário do que buscam em suas expectativas iniciais, os pacientes se deparam com o fato de que os resultados da terapia dependem do seu esforço consciente e dos recursos do seu Si-Mesmo, que se mobiliza colaborando para o desenvolvimento psíquico daquela pessoa.
A relação transferencial tem um caráter essencial nos distúrbios da auto-estima, o cliente tem uma tendência a projetar no psicoterapeuta a figura materna ou paterna e de buscar, através da psique do analista, a função de auto-regulação como ele projetava na mãe, durante suas relações primárias. O analista é uma parte fundamental e indispensável no processo. A percepção do paciente sobre o analista vai sendo distorcida de acordo com o complexo que está ativado no momento. É fundamental que o analista se faça disponível como uma figura de transferência.
“Os complexos psíquicos com seus padrões de interação estão constantemente sendo ativados no aqui e agora – especialmente na situação analítica, como elemento de transferência”. (Jacoby, 1994)
Esta transferência se manifestará uma vez que o analista se dispor a uma relação empática e sensível à psique do cliente. Os próprios sentimentos do analista podem oferecer possíveis interpretações sobre os processos inconscientes do paciente.  É importante que o analista consiga acesso aos sentimentos da criança ferida, por vezes, pode ser difícil conquistar a autoconfiança ferida do paciente para que os próprios sentimentos dos quais o paciente se envergonha possam vir à tona.
A compreensão empática do analista, aos poucos, permitirá que o medo de se expor (sentimento de vergonha) vá sendo minado e que as feridas e aspectos sombrios possam ser ventilados. O acolhimento do analista em relação a estes conteúdos permitirá que os padrões de interação vindos da infância sejam dissolvidos e novos padrões possam se estabelecer. Aspectos reais da infância do analisando devem ser resgatados, mas não podemos nos esquecer dos aspectos de fantasia da criança, suas experiências arquetípicas e míticas.
Portanto, a conexão entre o Eros do analista com a criança abandonada inicia a transferência positiva.
A partir da análise, o paciente pode rever seus conceitos sobre si mesmo, atualizar seus valores pessoais e estabelecer um novo padrão de interação com “o outro”. O Si-Mesmo antes aprisionado pela repressão, pode trazer à consciência novos recursos.
Tais transformações não ocorrem por um ato de vontade, mas são orquestradas pelo próprio Si-Mesmo. A tarefa do analista é ser um instrumento facilitador para que o processo psíquico possa ocorrer rumo à individuação.
Bibliografia:
1)       JACOBY, Mario. Shame and origins of self-steem. London: Ed. Routledge, 1994
2)      ________. O Encontro Analítico. São Paulo: Cultrix, 1992
3)      JUNG, C.G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. OC IX/ 1. Rio de Janeiro: Vozes, 2000
4)      ­­________. O Desenvolvimento da Personalidade. OC XVII. Rio de Janeiro: Vozes, 1981.
5)      NEUMANN, E. A Criança. São Paulo: Cultrix, 1991
6)      STEIN, R. A Redenção da Criança Interior no Casamento e na Terapia In: ABRAMS, J. (Org.) Reencontro da Criança Interior. São Paulo: Cultrix,1994.

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